Não sei vocês.
Mas eu não estou entendendo nada.
Quando foi que nos tornamos tão higiênicos?
Quando foi que o mundo ficou assim antisséptico?
Quem determinou que passássemos agora a álcool gel?
Estou me sentindo habitante de um mundo coberto de fórmica e povoado de fiscais anti-fumaça.
E o que mais me espanta não é as autoridades legislarem sobre os ares que devemos respirar... autoridades que são, exercem seu poder minúsculo em maiúsculas...
... o que me espanta mais são as fisionomias satisfeitazinhas dos cidadãos que nos informam:
Aqui você Não Pode Mais Fumar...
O arzinho guloso, satisfeito, a volúpia de exercer o controle sobre aquele Ar. Aquele Ar Puro da Cidade de São Paulo.
Achei que a lei não ia pegar, achei que era uma sanitarice besta - mas parece que pegou, parece que agradou, isso é o que espanta. As pessoas parece que adoraram esse poder de controlar o Ar.
Esse poder de Impedir alguma coisa.
Não podem impedir a imundíce do rio, a paralisia do tráfego dos 4 milhões de veículos, a insignificância da sua vidinha inútil, mas podem impedir as outras pessoas de fumar.
Poder e Glória nessa cidade imunda.
No prédio em que eu trabalho, por exemplo, no meio dessa cidade cinza, circulam diariamente mais de 2.000 pessoas. As supostas saídas de emergência estão todas fechadas por correntes e cadeados; não há porta corta-fogo; extintores nunca vi; o elevador tem uma plaquinha dizendo Acesso Exclusivo Para Deficientes, mas nunca funcionou; no corredor da minha sala tem fios desencapados que se contorcem no chão sob nossos pés; meus alunos se sufocam porque as janelas das salas estão sempre emperradas... Deve ter umas 1.000 leis municipais, estaduais e federais violadas diariamente naqule prédio fantasmagórico desde 1970, mas nunca vi nem soube que alguém tivesse reclamado.
Agora: Fumar? Não pode.
Contra isso levantam-se os ocupantes-fantasmas do prédio. Não sei onde estavam antes. Devem ter surgido dos subsolos imundos que periodcamente se inundam dos canos dos esgotos do banheiro do segundo andar que teimam em transbordar mensalmente; dali se levantam, indignados, Aqui Não Pode Mais Fumar.
Então é isso que me espanta.
A voracidade do obedecimento à lei antisséptica do anti-fumaça, como se tivessem fundado uma Suécia no meio do Bangladesh que é essa cidade louca, fedorenta e feia.
Pode tudo. Fumar não pode. Deve ser porque tudo isso que se faz contra as pretensas leis - jogar porcaria no rio, soltar diesel adulterado dos canos dos ônibus, fechar as portas de emergência com cadeados - tudo isso são burrices fortuitas, enquanto o fumar pode ser uma burrice, mas é uma burrice que dá prazer a alguém. Isso sim é imperdoável, vamos ligar agora no 0800.
Não faz mal.
Vão sorrindo seus sorrizinhos gulosos me dizendo que Aqui Não Pode Mais Fumar.
Joguem todos os cinzeiros da cidade no rio Tietê.
Não vai adiantar, ainda vamos estar chafurdando no meio da maior porcaria da América do Sul, e vocês pensando que isso é algum Estocolmo.