Monotematicamente sigo no problema da malabarista...
... fiz hoje um tanto de coisas, todas desconexas, nenhuma até o final:
1. Acordo, levo as criança na escola (mochila? lancheira? dente? cabelo? gorro? olha o dedo na porta!). No rádio: o coro do Nabuco de Verdi, na ida; Stones no voume 29 na volta.
2. Paro no mercadinho e compro duas bandejas de filé de alcatra pro almoço.
3. Chego em casa, tomo banho; tomo café com o Marcelo; ele sai; eu falo sobre o almoço com a empregada; eu subo e começo a pensar em trabalhar.
4. Preciso terminar o artigo pro JPL. Preciso. Olho pra o que já está feito, parece bom, parece mau. Mudo coisinhas aqui e ali. De repente me pareceu horrível... é pra dia 30...
5. Mas aí dão 10 horas, e me liga a amiga do Marcelo que precisava de ajuda com o texto em inglês, eu tinha prometido, lá vou.
6. No caminho penso no artigo e me vem a solução. Pronta, olhando ali pra mim. E eu dirigindo! E eu no tapetão! Preciso lembrar depois, me concentro pra não esquecer depois.
7. Chego na casa da moça, descabelada, desesperada, precisa apresentar a coisa em inglês e não sai. Duas horas de terapia, ou melhor, tradução, e a coisa começa a sair.
8. Dá 1h da tarde e me ligam os meninos no celular. Como que eles chegaram em casa e eu não estou? Digo que já tou indo, demoro mais um tanto.
9. Fico feliz que pelo menos agora não sou mais uma louca de carro enlameado, fui esperta, aproveitei nesse intervalo e deixei o carro lavando na frente da casa dela, com cera e tudo, 20 contos, estava um horror. Agora sou uma louca de carro brilhando.
10. Chego em casa, já almoçaram com a empregada. Mais ou menos, um comeu só arroz, o outro só bife. Como eu o meu bife frio com cebola. Nunca faço isso, talvez umas três vezes por ano deixo eles almoçando sozinhos, depois me dá uma culpa horrível.
11. Quando acabei de tomar café e fumar já estava na hora de levar os dois pra uma festinha. Escovar dente! Se trocar! A camisa furada não!
12.Todos prontos, saindo, chega a vizinha e me pergunta se eu esqueci do aniversário dos filhos dela... claro que esqueci... quer dizer, claro que não.. já voltamos...
13. Saio disparada, compro o presente do aniversariante número 1, deixo os meninos na festa número 1, volto correndo.
14. Subo e começo a escrever, porque não podia esquecer, não podia esquecer a solução pro artigo! Escrevo dez linhas. Leio e parecem tão ridículas, as mesmas palavras que de manhã pareciam geniais na minha cabeça. Tento reformar minha idéia brilhante, ortopedia do texto, tiro aqui e mudo prali.
15. Nesse ínterim me jura a vizinha que entrou na minha casa, estourou pipoca no meu microondas, e eu nem percebi, em transe com a adjunção das topicalizações contrastivas.
16. Logo está na hora de sair e comprar o presente pros aniversariantes número 2 e 3. Saio e vou sozinha, aproveito e compro pra mim um brinco de preço absurdo.
17. Pego os dois na festinha número 1, emburrados, ia já começar a caça ao tesouro!!! Com o tio Sprite!!! Peço mil desculpas pra mãe do menino por tirar o quórum da festa ainda no meio.
18. Chego na vizinha e já iam começar a cantar os parabéns, me olham como a louca que esqueceu de trazer os filhos.
19. É pique, é pique. Brigadeiros, etc. Tomás se engalfinha com o aniversariante, em litígio sobre uma bexiga vermelha. A coisa vai num piorando, tento levar os dois pra casa.
20.Agora minha sobrinha quer vir dormir na nossa casa. Alegria, todos felizes com o plano.
21. Chego em casa com três crianças, encho a banheira. Lava orelha; passa escova na unha. Enxuga bem o cabelo; olha a meia; escova dente.
22. Todos pro quarto, tão com fome. Faço um leite com chocolate reforçado com aveia, como podem estar com fome depois de dois aniversários?
23. Tomam o leite, e começa uma disputa por travesseiros, por livros, por abajures, por bichinhos de pelúcia, por tudo. Minha sobrinha começa a chorar e quer a mãe desesperadamente.
24. Vem minha cunhada, pra pegar a menina. Tentamos ainda bater um papinho na mesa da cozinha, mas o clima beligerante dos pequenos avoluma. Tentativas do Pedro de ler uma história para os menores com uma lanterna debaixo das cobertas acabam em lanternadas na cabeça.
25. Já não quero mais saber na cabeça de quem. Minha cunhada leva a menina arrastada, eu mando os dois pra cama já.
Agora um relativo silêncio, mas sinto os dois tristes lá deitados.
26. Subo pra trabalhar, preciso, preciso resolver a coisa das topicalizações. Mas minha cabeça flutua com mil coisas...
27. Começo a escrever isso daqui.
28. Daqui a pouco chega o Pedro por trás de mim, não percebi, igual quando a vizinha estourou a pipoca...
29. E me dá um abraço e um beijinho e diz boa noite, mamãe, agora boa noite de verdade.
30. Quem sabe agora consigo parar a cabeça? Quem sabe agora pego uma bola e seguro?
31. Antes de tudo vou descer e dar boa noite de verdade pros dois.
32. Eu sei que o dia não tem 32 horas, mas precisava.